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Enredada em incompetência e alegados interesses na produção, a DANIDA havia contratado um mau pedaço da engenharia dinamarquesa para instalar um incinerador de resíduos na Índia. Por bizarra perversão, os reputados consultores acabaram por parir um aborto - o que mesmo assim não impediu que a DANIDA o financiasse com um softíssimo empréstimo de 10 milhões USD. Concluída a obra de engenharia tóxica, os fornos trabalharam apenas durante uma semana - 7 dias. E por duas razões: primeiro porque o lixo que sobrava da pobreza era naturalmente molhado - cheio de lágrimas. Segundo porque, e por mais que o incinerador DANIDA clamasse por melhores lixos, a Índia não queria violar tratados e éticas - sobretudo quanto à importação de lixos. Mas por um minuto regresse-se agora ao filme Matola, onde as imagens de Outubro 1998 nos dão o prazer de recordar Carlos Cardoso. Severamente indignado, ele questionava o governo moçambicano quanto ao import/export de lixos - e a propósito de autorizações governamentais que licenciavam um obscuro alvará da International Waste Group (IWG). Semanas antes, o Greenpeace havia publicado cópias das autorizações de negócio emitidas pelo governo em descarado golpe bio-ético, e no viés de múltiplos tratados internacionais. As autorizações ministeriais haviam sido emitidas em Fevereiro 1996, e nem três meses haviam passado quando o Greenpeace soube delas. Curiosamente, tudo aconteceu num cocktail de ambientalistas na RSA. Em ambiente workshop SADC, incidentalmente dedicado ao banimento do tráfico de resíduos, um senior moçambicano deixava saber que o governo preparava um projecto de incinerador em Moçambique. Um projecto que devido a economias de escala, para além da merda local, faria igualmente recurso à importação de lixos internacionais - nesse sentido aliás, teriam já sido oficialmente contactados quatro países. Ocorre que dois anos depois do cocktail na África do Sul, e em plena batalha Matola, o Greenpeace sente-se na obrigação de publicar as autorizações de 96. Para eles, e mesmo que elas não dissessem respeito àquele filme, ou pelo menos imediatamente, as autorizações ministeriais constituíam boa prova da oficialidade de uma hedionda hipótese - a do tráfico tóxico. E para uma velha puta como o Greenpeace, a pressão pública tinha poucos mistérios - sobretudo quando se enfrentavam absurdas intransigências como as que se exibiam na batalha da Matola. Curiosamente, e como se viria a demonstrar, presciência e canjas de galinha nunca fizeram mal a ninguém. Com cópias das autorizações na mão, em Setembro 1998 os jornalistas e o mundo atento ao tráfico de tóxicos encostavam o governo e Danida à parede dos Cimentos Matola - e do outro lado, o que as imagens registavam eram embaraçados desmentidos, e patéticas indignações. Poucas semanas depois, o filme incineração @ Matola era interrompido por um slide de Outubro 1998 que, sob fundo requiem, projectava a revogação da autorização MICOA (Ministério da Coordenação Ambiental). Mas, em nota pé-de-slide a produção questionava-se: e as outras autorizações, o que é feito delas ? |

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